Ontem fui tomar café na padaria como faço algumas vezes. Resolvi olhar pelo vidro e me deparei com uma cena: uma garota dormindo do outro lado da rua na calçada. Ela estava toda encolhida embrulhada por sacos plásticos e como colchão tinha um papelão.
Lembrei que como todos os dias acordei reclamando por ser cedo e me dizendo o quanto eu queria voltar a dormir. Olhando novamente, me senti mal por reclamar daquilo que aquela garota não tinha e eu tendo não valorizava.
A gente não percebe quando reclama, mas isso é tão egoísta e mesquinho. Reclamamos da quantidade de trabalho enquanto milhões de pessoas queriam um emprego, reclamamos da comida enquanto milhões morrem de fome, reclamamos de tudo o que temos mesmo sem perceber. A insatisfação humana nos torna ingratos com aquilo que a vida nos deu.
O motorista sempre deixa o rádio tocando enquanto nos leva ao trabalho. De repente tocou essa música, eu nunca tinha ouvido, mas achei a letra muito parecida com a imagem que eu vi logo cedo.
Anjos das ruas
Andando pelas ruas
Eu vejo algo mais do que arranha-céus
É a fome e a miséria
Dos verdadeiros filhos de Deus
Vejo almas presas chorando em meio a dor
Dor de espírito clamando por amor
Anjos das ruas
Anjos que não podem voar
Pra fugir do abandono
E um futuro poder encontrar
Anjos das ruas
Anjos que não podem sonhar
Pois a calçada é um berço
Onde não sabem se vão acordar
Às vezes se esquecem que são seres humanos
Com um coração sedento pra amar
Vendendo seus corpos por poucos trocados
Sem medo da morte o relento é seu lar
A gente fecha os olhos pra essa situação por que é uma verdade inconveniente. Com medo da assombrante violência evitamos nos aproximar e nos vendamos pra essas pessoas.
Eu me incomodei com o que vi, mas me incomodei muito mais ao rever o quanto já tinha me vendado pra essa situação, o quanto fui ingrata a tudo o que eu tenho.
Agora chove muito, eu tô aqui protegida dentro de casa, mas aquela moça deve estar na rua, provavelmente toda molhada e com frio. Talvez não tenha comido nada hoje ou esteja doente. Eu, você ou qualquer pessoa poderíamos estar no lugar dela, então já que não estamos, o mínimo que devemos fazer é sermos gratos por tudo o que temos e que podemos conseguir.
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